A estreia seria em junho de 2020.

Depois de dois anos de processo criativo, algumas várias tentativas de financiamento via editais públicos e venda para empresas do setor privado, a chegada da pandemia e da quarentena inviabiliza uma estreia que conquistaria seu público como um ato de militância, de um espetáculo produzido e divulgado com recursos próprios, numa luta temperada com muita teimosia e determinação, a ser apresentado no espaço do Atelier Cênico, situado na Vila Buarque, centro de São Paulo.

Reuniões digitais, algumas outras tentativas de outros editais emergenciais...

Como dar continuidade a uma produção que já se mostrava pronta para ganhar o respiro das apresentações e da interação com o público?

Como manter viva a história das nossas Pagus, nesse mês de junho em que se completam 110 anos de nascimento de Patricia Rehder Galvão?

Oito atores e uma diretora, nove rostos de dúvidas, desejos e apreensões divididos em quadradinhos de uma tela de computador.

Pagu não vai morrer.

Pagu está viva.

Pagu será “live”.

Pega o computador, o celular, monta uma estrutura pra colocar a câmera naquele ângulo, escolhe uma parede da sua casa de fundo para aquela cena, não temos figurino, pega aquela blusa da sua mãe, pega aquele abajur, a lanterna, prende os gatos no quarto da sua filha, avisa todo mundo em casa pra não acender a luz naquele momento, não pode entrar na cozinha, tenta não fazer barulho...

Plataformas digitais, como acessar, como controlar, como soltar a música, eu abro minha câmera aqui, você fecha minha câmera aí, como fazer as transições? Fecha o microfone, abre o microfone...

E Pagu renasce...

Um grupo de teatro fazendo teatro na frente de uma tela de computador olhando nos olhos de seus parceiros de cena a quilômetros de distância...

Curitiba, Itapecerica, São Caetano, Santo André, Butantã, Vila Buarque, locais separados e unidos por uma vontade em comum.

A magia da relação presente se concretiza por entre fios e cabos e monitores...

A magia do teatro insiste em se recriar e resistir.

Pagu:

Onde começa a voz

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Solange Sohl existe.

É a morta luminosa.

A mim cortou o coração com um dobrar de olhos.

Ela recebe em sua palma o meu coração quente.

Ela morde o meu coração como um fruto jovem.

Luminosa!

Quem a diria capaz de tanta e estreita morte, A devoradora desse triste músculo esforçado?

(…) Solange Sohl dispõe os lábios no lugar da ferida.

De modo que esta se feche e o corvo dentro. Logo esse pássaro triste abandona o meu peito.

Aí onde é a minha garganta, aí ele se agarra,

Aí, onde começa a voz.

Poema de Augusto de Campos

Pagu

Pagu, sua trajetória rumo ao sol...

 

Quanto de Pagu ainda ressoa em nós mulheres que vivemos esse século XXI? Pagu – como disse Rudá, seu neto – “uma mulher que, para além de ser minha avó, é uma personagem, é avó de tantas, de todas nós”.

Ao entrar em contato com seus textos, seus poemas, crônicas e desenhos fomos pouco a pouco conhecendo a história de um Brasil diverso, antropofágico, pequeno burguês, contraditório, machista e racista, mas, foi pelos caminhos tão singulares e intensos que Pagu escolheu, que nos deparamos com um Brasil que já naquele momento sonhava com mudanças, em que os proletários organizavam comícios e subiam ao palanque.

Ao nos apropriarmos de tão vasto material, nosso trabalho foi como o de um arqueólogo, em que buscamos pistas que poderiam nos levar ao espírito de uma época que pariu uma personagem como Pagu, que provocou tantas paixões, afetos, desafetos e revoluções nas pessoas à sua volta, por meio da militância e da poesia.

Como  Pagu            em nós?

  

A pesquisadora Lucia Maria Teixeira, no prefácio do livro “Viva Pagu. Fotobiografia de Patrícia Galvão”, diz:

“Patricia se coloca, assim, pronta para ser examinada, devorada, com todas as pistas que nos deixou, retratos, provas, radiografias, fraturas expostas. Trazem-nos sua essência de inquietação, crítica, movimento e abertura para o novo.

Pagu, típica personagem de um tempo de paixões. Dificilmente um ser humano normal, em um só tempo de vida, seria capaz de viver tantas e tão variadas experiências, com tamanha intensidade.”

 

Pagu queria reconstruir a sociedade, mudar, deixar as coisas justas, igualitárias... e, se preciso fosse, botar tudo no chão primeiro... Re-construir. Revolucionar. Se toda revolução começa pelo indivíduo, ela fez jus a isso, disponibilizando seu corpo, sua vida, seu intelecto e sua força de trabalho para um ideal de revolução então gestado nesse país...

Muita coisa aconteceu. A trama da história é longa e cheia de nós, de percalços. A cada um deles, Pagu se refazia e seguia com entusiasmo, sem nunca abrir mão do que prometeu a si mesma ainda muito jovem: “Era só da dissolução completa que poderia surgir a verdadeira personalidade”.

ressoa

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